Para começar o ano quero trazer uma reflexão. Nesses últimos dias, com bastante horas vagas, comecei a caçar um hobbie para passar o tempo e me distrair. Queria voltar a ler, claro, mas queria algo diferente de ler. Mas em tudo que eu começava, ficava me perguntando: “Será que vai dar bom? Mas eu não sei nada! E se eu for ruim?”. Acho que me acostumei a desistir sempre que penso na hipótese de falhar, de ser ruim. Talvez por conta do perfeccionismo, eu tenha essa ideia de que preciso ser muito boa no que vou fazer. Logo, se eu começar um hobbie, já tenho que começar no nível profissional. Mas sabemos que não é assim.
Até que assisti um vídeo, e o que eu lembro, que não é muito, foi uma pessoa falando sobre pessoas mais velhas que têm medo de entrar na faculdade. Ela disse algo do tipo: daqui a 5 anos, você terá a mesma idade, fazendo faculdade ou não. Então você pode escolher: daqui a 5 anos estar reclamando porque poderia ter feito ou estar se preparando para pegar o seu diploma. E isso me marcou de uma forma que comecei o meu hobbie e estou tentando aplicar esse pensamento em minha vida. Eu posso simplesmente tentar fazer, com erros, aprendendo a acertar, ou, daqui a alguns anos, posso me encontrar no mesmo dilema: querer algo e me perguntar como seria se tivesse tentado enquanto tinha tempo e disposição.
Acho que isso pode parecer um pouco óbvio, principalmente com o dilema “temos que aproveitar a vida” ou “viver a vida como se fosse única”. São frases que ouvimos tanto que quase perdem o sentido, sabe? Mas com a correria do dia ou com a sobrecarga, acabamos esquecendo e priorizando outras coisas. E está tudo bem com isso — a gente não precisa se sentir culpada por focar no trabalho, nas responsabilidades ou no que precisa ser feito. Mas, às vezes, precisamos de um lembrete de que podemos também priorizar outras coisas enquanto mantemos nossas prioridades.
Acho que, no ano passado, senti muito isso. Em muitos aspectos, acabei deixando de viver no sentido mais simples: fazer coisas básicas, sair para tomar um sorvete, dar uma volta, só para estar presente. Tudo porque estava cansada demais. Na hora parecia justificável: “Ah, eu estou exausta, não tem problema adiar”. Mas, olhando para trás, me pergunto: “E se tivesse feito? E se eu tivesse usado aquele momento, mesmo cansada, para me dar um pouco de alegria?”. Acho que é esse sentimento que não quero que esteja presente neste novo ano.
Acredito que muitas vezes associamos autocuidado a coisas grandes, como tirar férias, planejar algo especial ou fazer uma grande mudança. Mas, na verdade, ele está nos gestos muito pequenos, quase invisíveis, que passam despercebidos no dia a dia. O problema é que vivemos em uma cultura de produtividade tóxica, que nos faz acreditar que só somos válidos ou dignos se estivermos sempre fazendo algo, produzindo, alcançando metas ou realizando inúmeras atividades. E quando não alcançamos, vem aquele pensamento cruel: “Eu poderia estar fazendo mais”.
Eu mesma já estive nesse lugar inúmeras vezes. Já me peguei olhando para rotinas que não me cabem — aquelas pessoas que parecem fazer tudo, estar em todos os lugares, cumprir todas as metas — e me sentindo uma fracassada por não conseguir o mesmo. É quase como se a gente se obrigasse a competir com um ideal inalcançável, sem se perguntar: “Mas isso é realmente o que eu quero ou preciso? Isso faz sentido para mim?”.
Entretanto, percebi que, às vezes, o que mais importa são aquelas pequenas pausas. Ir tomar um sorvete depois de um dia cheio ou tirar cinco minutos para fazer algo que eu gosto — ouvir uma música, assistir um vídeo engraçado, caminhar sem rumo — pode ser uma forma de lembrar que a vida é muito mais que apenas nossas obrigações ou a lista de tarefas. Esses momentos podem parecer simples, mas são formas de resgatar o significado da vida no meio do caos.
Acho que com essa movimentação minha que venho tendo nos últimos meses, principalmente em relação à ansiedade, comecei a me questionar muito e perceber inúmeros momentos que deixei de aproveitar pensando no futuro, em quando eu chegasse lá, mas quando eu atinjo uma meta, percebo que não consigo aproveitar o que tanto desejei, porque no fim estou me preocupando com um outro futuro de novo, e no final acabo não aproveitando nenhum dos momentos. Então, me pergunto e faço essa pergunta pra você: O que é realmente importante?
Se viver mais leve, aproveitar pequenos momentos, é algo que você valoriza, como eu também percebi que valorizo, talvez o exercício seja encontrar espaço para isso no meio da rotina. Não precisa ser algo grandioso — às vezes, é só parar, pegar um açaí ou assistir um filme, mas lembrar que a vida também acontece nos intervalos.
Olhar para o ano passado e sentir que eu deixei de viver gera um certo peso, mas está tudo bem. Às vezes, fazemos o que conseguimos com os recursos que temos no momento (meu mantra). Só que o mais importante é usar essa reflexão não para se punir, mas para fazer escolhas diferentes daqui para frente.
Então, uma das minhas metas para este ano é exatamente essa: priorizar pequenos momentos de alegria, mesmo nos dias mais cansativos. Sabe, lembrar que, às vezes, algo tão simples como sentar no sol por alguns minutos ou assistir um episódio rápido de uma série pode transformar o meu dia. Não é sobre viver “como se fosse única” no sentido de ter que aproveitar cada segundo como se fosse o último — isso, aliás, seria muito desgastante, né? Mas é sobre encontrar pequenos pedaços de vida no meio do caos, porque esses momentos, no fim das contas, são o que realmente constroem o todo.
E, para mim, também significa algo importante: tentar mesmo quando eu não tiver certeza do que estou fazendo. É me permitir errar, começar do zero, aprender no caminho e, principalmente, parar de focar tanto no futuro e viver o agora. Porque sejamos sinceros, a gente vive dizendo que a vida passa rápido, mas, ao mesmo tempo, ela também é tão longa (cada ano tem 365 dias, só fazer as contas). São anos e anos que temos pela frente, e a grande pergunta é: como eu quero gastar esse tempo?
Assim quero internalizar a ideia de estar presente, realmente presente, no momento que estamos vivendo, porque quando focamos demais no futuro — nas incertezas, nas metas a cumprir ou no medo de falhar —, nos desconectamos do agora. E, ironicamente, é no agora que podemos plantar as sementes do futuro que desejamos.
E sabe aquela história de que “daqui a 5 anos você terá a mesma idade, independentemente de estar fazendo ou não algo que deseja”?, irá ser (como já está sendo) um cartão de enfrentamento, porque acho que a pior sensação não é falhar, mas olhar para trás e pensar: “E se eu tivesse tentado?”. Talvez não desse certo do jeito que eu imaginava, mas talvez desse — ou me levasse para um lugar que eu nem tinha imaginado.
Então, acho que é isso que vou levar para este ano: me permitir tentar. É lembrar que não preciso ter todas as respostas agora, que não preciso ser perfeita no que faço, e que pequenos passos podem me levar a lugares incríveis. No fim das contas, não é sobre evitar o erro, mas sobre me dar a chance de viver, de construir algo novo. E, sinceramente, eu prefiro daqui a 5 anos olhar para trás e ver as histórias que criei tentando, do que carregar o peso de ter ficado parada, presa no medo do “e se”.